Em resumo
Varizes são veias superficiais dilatadas e tortuosas, quase sempre nas pernas, cujas válvulas deixaram de impedir o refluxo do sangue. São muito comuns, tendem a progredir com o tempo e podem causar peso, dor e inchaço. O diagnóstico é confirmado pelo ecodoppler, e a maior parte dos tratamentos atuais, como laser endovenoso e radiofrequência, dispensa internação.
Varizes são veias superficiais que se dilataram, ficaram tortuosas e deixaram de conduzir o sangue de volta ao coração com eficiência. Aparecem sobretudo nas pernas, onde a gravidade exige mais das veias. Não são apenas uma questão estética: fazem parte da doença venosa crônica, que pode evoluir com inchaço, manchas na pele e, nos casos avançados, feridas. O diagnóstico é simples e a maioria dos tratamentos modernos é feita sem internação.
Como as veias das pernas funcionam
As artérias levam o sangue do coração até os pés, impulsionadas pela pressão de cada batimento. O caminho de volta é mais difícil: as veias precisam fazer o sangue subir contra a gravidade, com pressão muito menor.
Três mecanismos tornam isso possível:
- Válvulas. Dentro das veias há pequenas válvulas que funcionam como portas de sentido único. Elas se abrem para o sangue subir e se fecham para impedir que ele desça.
- Bomba da panturrilha. A cada passo, os músculos da perna comprimem as veias profundas e empurram o sangue para cima. Por isso caminhar é tão importante para a circulação venosa.
- Rede de veias. O sistema profundo, dentro dos músculos, faz a maior parte do retorno. O sistema superficial, logo abaixo da pele, inclui as veias safenas e seus ramos. As veias perfurantes ligam os dois sistemas.
Quando as válvulas de uma veia superficial falham, o sangue passa a refluir para baixo sempre que a pessoa fica em pé. A pressão dentro da veia aumenta, a parede se distende e as válvulas vizinhas também deixam de fechar. Hoje se sabe que a própria parede da veia se altera, às vezes antes das válvulas, o que ajuda a explicar por que o problema tende a progredir.
Varizes, vasinhos e veias reticulares
O que as pessoas chamam de “varizes” abrange veias de calibres diferentes, com implicações diferentes.
| Tipo | Calibre aproximado | Aspecto |
|---|---|---|
| Telangiectasias (vasinhos) | menos de 1 mm | finas, avermelhadas ou arroxeadas, em forma de aranha ou ramos |
| Veias reticulares | 1 a 3 mm | azuladas ou esverdeadas, visíveis sob a pele, sem saliência |
| Varizes | 3 mm ou mais, medidas em pé | salientes, tortuosas, às vezes em novelo |
Os vasinhos nas pernas costumam ser uma questão estética, mas podem causar ardor e, em algumas pessoas, acompanham refluxo em veias maiores. As varizes propriamente ditas têm mais relação com sintomas e complicações. Para uma visão geral das doenças venosas, incluindo a insuficiência venosa, vale entender que tudo isso faz parte de um mesmo espectro.
Quem tem varizes
Estudos populacionais mostram que varizes estão entre as condições vasculares mais comuns em adultos, e a frequência aumenta com a idade. São mais diagnosticadas em mulheres, mas os homens também as têm e muitas vezes procuram atendimento mais tarde, já com a doença avançada.
A origem é multifatorial. Os fatores com relação mais consistente são:
- história de varizes nos pais ou irmãos;
- idade;
- gestações;
- influência hormonal;
- excesso de peso;
- longos períodos em pé ou sentado, sem movimentar as pernas;
- trombose venosa prévia.
A herança familiar tem papel central e não pode ser mudada, mas os fatores de estilo de vida podem acelerar ou retardar o aparecimento das veias. O detalhamento de cada um está em causas e fatores de risco das varizes.
Sintomas
Muitas pessoas com varizes não sentem nada. Quando há sintomas, os mais comuns são:
- sensação de peso e cansaço nas pernas;
- dor, queimação ou latejamento;
- inchaço nos tornozelos ao fim do dia;
- câimbras, principalmente à noite;
- coceira sobre as veias dilatadas.
Esses sintomas costumam piorar ao longo do dia, no calor e depois de muito tempo em pé, e melhoram com as pernas elevadas ou caminhando. O tamanho das varizes nem sempre corresponde à intensidade das queixas: há quem tenha veias grandes sem incômodo e quem sinta muito com veias pouco visíveis. Como outras doenças também causam dor nas pernas, os sintomas de varizes precisam ser interpretados em conjunto com o exame.
Procure atendimento imediato se uma perna inchar de repente, com dor na panturrilha ou na coxa; se houver falta de ar ou dor no peito sem explicação; ou se uma variz sangrar e o sangramento não parar com a perna elevada e compressão firme no local.
Como a doença evolui
Para descrever a gravidade de forma padronizada, os cirurgiões vasculares usam a classificação CEAP. Na parte clínica, ela vai de C0, quando não há sinais visíveis, até C6, quando existe uma úlcera aberta. Varizes correspondem à classe C2; inchaço, à C3; alterações de pele, à C4; úlcera cicatrizada e ativa, às classes C5 e C6.
Nem todo mundo percorre essas etapas, e a velocidade varia muito. Ainda assim, a doença venosa tende a progredir quando não é tratada. A explicação detalhada de cada classe está em classificação CEAP. A fase avançada, com inchaço persistente e alterações de pele, recebe o nome de insuficiência venosa crônica.
Complicações
A pressão elevada dentro das veias, mantida por anos, afeta a pele e o tecido abaixo dela. As principais consequências são:
- manchas acastanhadas e eczema na parte baixa das pernas;
- endurecimento da pele e do tecido gorduroso (lipodermatoesclerose);
- úlcera venosa, ferida de cicatrização lenta, típica da região do tornozelo;
- sangramento de varizes superficiais, que pode ser volumoso;
- tromboflebite, inflamação com coágulo numa veia superficial;
- associação com maior risco de trombose venosa profunda, descrita em estudos observacionais.
Esses quadros são mais frequentes em quem convive com varizes por muitos anos sem acompanhamento. Veja como reconhecer cada um em complicações das varizes.
Situações especiais
Gravidez. O aumento do volume de sangue, a ação dos hormônios e a compressão das veias pelo útero favorecem o aparecimento de varizes, inclusive na vulva. Muitas regridem depois do parto, mas nem todas. O tema tem página própria: varizes na gravidez.
Varizes pélvicas. Veias dilatadas na pelve podem causar dor pélvica crônica e alimentar varizes na região genital e na parte interna das coxas. Quando varizes das pernas voltam pouco tempo depois do tratamento, a origem pélvica deve ser investigada. Mais detalhes em varizes pélvicas.
Lipedema. Pernas grossas, doloridas e com hematomas fáceis podem ser lipedema, uma doença do tecido gorduroso que costuma ser confundida com varizes ou obesidade, e as duas condições podem coexistir. A diferença está explicada em lipedema ou varizes.
Diagnóstico
A consulta começa pela história e pelo exame das pernas em pé, com boa iluminação. Na maioria dos casos, o exame decisivo é o ecodoppler venoso, um ultrassom que mostra o sentido do fluxo do sangue em cada veia.
O ecodoppler identifica:
- quais veias têm refluxo, inclusive as safenas e as perfurantes;
- o calibre e o trajeto de cada segmento doente;
- sinais de trombose atual ou antiga no sistema profundo;
- variações anatômicas que mudam a estratégia de tratamento.
Esse mapeamento é o que permite escolher a técnica certa para cada veia. Tratar apenas o que se vê na pele, sem conhecer a origem do refluxo, é uma causa frequente de recidiva. Se você tem dúvida sobre o momento de marcar a consulta, veja quando procurar um cirurgião vascular.
Tratamentos
O tratamento tem três objetivos: aliviar sintomas, evitar que a doença avance e melhorar a aparência das pernas. Nem sempre é preciso operar, e muitas vezes as técnicas são combinadas.
| Técnica | Indicação principal | Como é feita | Retorno às atividades |
|---|---|---|---|
| Laser endovenoso | safenas e veias retilíneas com refluxo | fibra de laser dentro da veia, guiada por ultrassom, com anestesia local | atividades leves costumam ser retomadas em poucos dias |
| Radiofrequência | as mesmas do laser endovenoso | cateter que aquece a parede da veia por dentro | semelhante ao laser |
| Escleroterapia com espuma | varizes tortuosas, recidivas e casos selecionados de safena | injeção de espuma esclerosante guiada por ultrassom | em geral imediato |
| Cirurgia de varizes | ramos varicosos e casos em que as técnicas térmicas não se aplicam | retirada das veias por microincisões | de dias a poucas semanas, conforme a extensão |
| Escleroterapia e laser transdérmico | vasinhos e veias reticulares | sessões em consultório | sem afastamento |
| Meias de compressão | alívio de sintomas e fases avançadas | uso diário | não se aplica |
| Medicamentos flebotônicos | alívio de sintomas e inchaço | via oral | não se aplica |
As diretrizes europeias de 2022 e as norte-americanas de 2022 e 2023 recomendam as técnicas térmicas endovenosas, laser ou radiofrequência, como primeira escolha para a safena magna com refluxo, por oferecerem bons resultados com recuperação mais rápida do que a cirurgia convencional. A espuma e a cirurgia continuam úteis em situações específicas.
Meias e medicamentos aliviam sintomas, mas não fazem as varizes desaparecerem. Para comparar vantagens e limites de cada opção, a página de tratamentos reúne os critérios de escolha, e há também um bom resumo dos cinco tipos de tratamento de varizes.
Depois do tratamento: as varizes voltam?
A veia tratada corretamente não volta a funcionar como variz. O que pode acontecer, com o passar dos anos, é o aparecimento de novas varizes em outras veias, porque a predisposição continua. Também pode haver formação de novos vasos na região tratada ou progressão de refluxo em veias que estavam normais.
Por isso o tratamento não termina no procedimento. Seguir as orientações do pós-operatório, manter-se ativo e fazer revisões periódicas com ecodoppler quando indicado reduzem a chance de precisar de um novo tratamento extenso.
Muito do que se ouve sobre o assunto não se sustenta: nem todo tratamento exige hospital, a veia retirada não faz falta e cremes não eliminam varizes. Os mitos mais repetidos sobre varizes e a página de mitos e verdades desfazem os mais comuns.
É possível prevenir?
Não é possível mudar a genética, mas é possível reduzir a pressão sobre as veias e retardar a progressão. As medidas com melhor fundamento são caminhar e exercitar as panturrilhas, manter o peso adequado, evitar ficar muitas horas parado na mesma posição, elevar as pernas ao descansar e usar meia de compressão em situações de risco, como viagens longas ou trabalho prolongado em pé.
Essas medidas não eliminam varizes já formadas, mas ajudam a controlar sintomas e a proteger as outras veias. As orientações práticas estão em prevenção. Relatos sobre o dia a dia de quem convive com varizes nas pernas também ajudam a entender o que esperar.
Quando procurar o cirurgião vascular
Vale marcar uma avaliação se as varizes causam sintomas, se há inchaço frequente, manchas ou endurecimento da pele, se já houve tromboflebite ou sangramento, ou se as veias estão aumentando. Também é razoável procurar o especialista por motivo estético: a avaliação define se há refluxo a tratar antes de cuidar dos vasinhos.
A consulta com um cirurgião vascular inclui o exame das pernas e, na maior parte das vezes, o ecodoppler. Com esse mapa em mãos, é possível planejar um tratamento proporcional ao problema, sem excessos e sem deixar de lado a origem do refluxo.
Nesta seção
Causas das varizes e fatores de risco
Por que as varizes aparecem: herança familiar, hormônios, gravidez, idade, peso e trabalho em pé. Entenda o que pesa de verdade e o que é mito.
Sintomas de varizes
Pernas pesadas, dor, inchaço no fim do dia, câimbras e coceira: como reconhecer os sintomas de varizes e quando eles indicam algo mais sério.
Classificação CEAP
Entenda a classificação CEAP, revista em 2020, que o cirurgião vascular usa para descrever a doença venosa: das veias sem sinais (C0) à úlcera ativa (C6).
Complicações das varizes
Manchas escuras, endurecimento da pele, úlcera, sangramento e tromboflebite: conheça as complicações das varizes não tratadas e como evitá-las.
Insuficiência venosa crônica
A insuficiência venosa crônica é a fase avançada da doença das veias, com inchaço, alterações de pele e úlcera. Veja por que acontece e como se trata.
Vasinhos nas pernas
Vasinhos são telangiectasias, veias finas visíveis na pele. Saiba quando são só estéticos, quando indicam refluxo e como funcionam esclero, laser e CLaCS.
Varizes na gravidez
Por que as varizes surgem ou pioram na gestação, o que fazer com varizes vulvares, como usar meia de compressão e quando tratar depois do parto.
Varizes pélvicas e síndrome da congestão pélvica
Dor pélvica que piora em pé, varizes na vulva, nádegas ou parte de trás da coxa: como as varizes pélvicas são diagnosticadas e quando a embolização é indicada.
Trombose venosa profunda (TVP)
Como reconhecer a trombose venosa profunda, quem tem mais risco, como o diagnóstico é feito com D-dímero e ultrassom e o que esperar do tratamento anticoagulante.
Tromboflebite
Cordão vermelho, duro e doloroso na perna: o que é a tromboflebite superficial, quando ela se aproxima do sistema profundo e como costuma ser tratada.
Úlcera venosa
A úlcera venosa é a fase mais avançada da doença venosa. Entenda as causas, o papel da compressão e por que tratar as varizes acelera a cicatrização.
Lipedema, linfedema ou varizes
Pernas grossas, inchadas ou doloridas podem ter causas diferentes. Veja as diferenças entre lipedema, linfedema e edema venoso, e por que eles podem coexistir.
Inchaço nas pernas e pés
Pernas e pés inchados podem vir das veias, dos vasos linfáticos, do coração, dos rins ou de remédios. Veja como diferenciar as causas e quando procurar ajuda.
Dor na panturrilha
Dor na batata da perna pode ser câimbra, lesão muscular, varizes, trombose ou doença arterial. Entenda como diferenciar e quando procurar atendimento.
Coceira nas pernas
Coceira nas pernas pode vir de pele seca, alergia, exercício ou doença das veias, com eczema e manchas escuras. Veja como diferenciar e como tratar a causa.
Varizes em lugares incomuns
Veias saltadas nas mãos, varizes no pé, vasinhos no rosto, varizes na coxa e na vulva: quando é normal, quando indica doença e como costuma ser tratado.
Perguntas frequentes
Varizes têm cura?
A variz tratada deixa de existir: a veia doente é fechada ou retirada, e o sangue passa a circular pelas veias saudáveis. A tendência a formar novas varizes, porém, continua, porque depende de fatores como herança familiar, hormônios e idade. Por isso o acompanhamento periódico e hábitos como caminhar e manter o peso fazem parte do cuidado a longo prazo.
Fechar ou retirar a veia varicosa faz falta para a circulação?
Não. A veia varicosa já não cumpre sua função: em vez de levar o sangue de volta ao coração, permite que ele reflua para a perna. Depois do tratamento, o retorno passa a ser feito pelas veias profundas e pelas veias superficiais saudáveis, que dão conta do trabalho. A decisão de preservar uma safena para uso futuro em pontes é avaliada caso a caso.
Varizes podem causar trombose?
Varizes aumentam a chance de tromboflebite, que é a formação de coágulo com inflamação numa veia superficial. Estudos observacionais também associam varizes a um risco maior de trombose venosa profunda, sem que isso signifique que toda pessoa com varizes terá trombose. Dor, vermelhidão e endurecimento no trajeto de uma variz, ou inchaço súbito da perna, pedem avaliação médica rápida.
Qual é o melhor tratamento para varizes?
Depende de quais veias estão doentes, do calibre e da anatomia de cada perna, definidos pelo ecodoppler. Para a safena com refluxo, as diretrizes atuais recomendam como primeira opção as técnicas térmicas endovenosas, como laser e radiofrequência. Varizes tortuosas podem ser retiradas por microincisões ou tratadas com espuma, e vasinhos respondem à escleroterapia e ao laser transdérmico.
Referências
- European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2022 Clinical Practice Guidelines on the Management of Chronic Venous Disease of the Lower Limbs
- The 2022 Society for Vascular Surgery, American Venous Forum, and American Vein and Lymphatic Society clinical practice guidelines for the management of varicose veins of the lower extremities. Part I
- The 2023 Society for Vascular Surgery, American Venous Forum, and American Vein and Lymphatic Society clinical practice guidelines for the management of varicose veins of the lower extremities. Part II
Este conteúdo é educativo e não substitui a avaliação individual. Diagnóstico e indicação de tratamento dependem de consulta e, na doença venosa, quase sempre de eco-Doppler.
