Em resumo
A cirurgia de varizes reúne duas operações diferentes: a retirada da safena doente (crossectomia com safenectomia), hoje reservada a casos em que laser ou radiofrequência não se aplicam, e a microcirurgia ou flebectomia, que remove varizes tortuosas por microincisões com anestesia local e continua muito usada. A recuperação da safenectomia costuma levar de uma a duas semanas; a da microcirurgia, poucos dias.
Quando se fala em cirurgia de varizes, na verdade se fala de duas operações diferentes. A primeira é a retirada da safena doente, que por décadas foi o tratamento padrão e hoje perdeu espaço para o laser e a radiofrequência. A segunda é a microcirurgia, ou flebectomia, que remove varizes tortuosas por microincisões e continua sendo uma das técnicas mais usadas, muitas vezes junto das técnicas endovenosas.
Cirurgia convencional da safena
O que é feito
A operação clássica tem duas etapas:
- Crossectomia: uma incisão na virilha, para a safena magna, ou atrás do joelho, para a safena parva, permite ligar a veia no ponto em que ela se une ao sistema profundo e ligar também os ramos que chegam a esse ponto.
- Safenectomia (fleboextração ou stripping): a safena é retirada com um instrumento introduzido por dentro dela, puxado até uma segunda incisão.
Na safena magna, muitas equipes retiram a veia apenas da virilha até a altura do joelho. Essa estratégia reduz o risco de lesionar o nervo que acompanha a safena na perna, responsável pela sensibilidade da parte interna da perna e do pé.
Anestesia e internação
A cirurgia convencional costuma ser feita com raquianestesia ou anestesia geral; alguns serviços usam anestesia local tumescente com sedação. A alta ocorre, em geral, no mesmo dia ou no dia seguinte.
Por que perdeu espaço
Estudos que compararam a safenectomia com o laser endovenoso e a radiofrequência mostraram resultados de controle da doença semelhantes, com menos dor, menos hematomas e retorno mais rápido às atividades com as técnicas endovenosas. As diretrizes europeias, americanas e britânicas passaram, então, a recomendar a ablação térmica como primeira opção para safenas com refluxo e a cirurgia convencional quando essas técnicas não são adequadas.
Outro ponto conhecido é a neovascularização: após a crossectomia, pequenas veias novas podem se formar na virilha e alimentar varizes recidivadas anos depois.
Quando a cirurgia convencional ainda é indicada
A retirada da safena continua sendo uma boa opção em situações específicas, entre elas:
- Indisponibilidade das técnicas endovenosas, por falta de equipamento, de cobertura ou de equipe treinada;
- Anatomia desfavorável ao cateter, como safenas muito tortuosas, com segmentos dilatados de forma irregular ou muito próximas da pele, em que o calor poderia lesar a pele;
- Trombos antigos dentro da safena que impedem a passagem do cateter;
- Tromboflebite recorrente em segmentos tortuosos, conforme avaliação individual;
- Combinação com outras correções feitas no mesmo tempo cirúrgico.
A decisão sobre quando a retirada da safena é necessária é tomada a partir do eco-Doppler e das condições de cada pessoa, e não por preferência pela técnica mais antiga ou mais nova.
Microcirurgia de varizes (flebectomia ambulatorial)
O que é
A flebectomia ambulatorial, descrita por Müller, remove as varizes visíveis e tortuosas por incisões de um a três milímetros. Com agulhas finas ou pequenos ganchos, o cirurgião retira a veia em fragmentos. Em geral as incisões não precisam de pontos e são fechadas com fitas adesivas.
Para quais veias
- varizes tributárias dilatadas e tortuosas, próximas à pele;
- varizes que permanecem depois do fechamento da safena com laser ou radiofrequência;
- varizes isoladas sem refluxo importante na safena;
- algumas veias em regiões como joelho e tornozelo, com planejamento cuidadoso.
Não é a técnica dos vasinhos finos, tratados com escleroterapia ou laser transdérmico. Existem comparações entre a microcirurgia de varizes e o CLaCS, que combina laser transdérmico e escleroterapia, para ajudar a entender onde cada uma se encaixa.
Anestesia e duração
A microcirurgia é feita com anestesia local, às vezes com sedação, e a pessoa volta para casa no mesmo dia. A duração depende da quantidade de veias: de menos de uma hora a um pouco mais, quando associada ao tratamento da safena. As veias a retirar são marcadas na pele, em pé, antes do procedimento.
Cirurgia, laser ou espuma: comparação resumida
| Aspecto | Safenectomia convencional | Microcirurgia | Laser ou radiofrequência |
|---|---|---|---|
| Alvo | Safena com refluxo | Varizes tortuosas visíveis | Safena com refluxo |
| Anestesia | Raquianestesia, geral ou local | Local | Local tumescente |
| Incisões | Virilha ou joelho, mais incisões na perna | Microincisões | Punção |
| Retorno às atividades leves | Costuma levar de 1 a 2 semanas | Costuma levar poucos dias | Costuma levar poucos dias |
| Situação atual | Reservada a casos selecionados | Muito usada, isolada ou combinada | Primeira opção quando a anatomia permite |
A escleroterapia com espuma é outra forma de fechar varizes tortuosas sem incisões e pode substituir ou complementar a microcirurgia em algumas situações.
Preparação para a cirurgia
O planejamento começa na consulta e no eco-Doppler, que definem quais veias serão tratadas. Antes da operação, costumam fazer parte da preparação:
- Avaliação do risco cirúrgico, com exames conforme a idade, as doenças associadas e o tipo de anestesia.
- Revisão dos medicamentos: anticoagulantes, alguns antiagregantes, anticoncepcionais e reposição hormonal podem precisar de ajuste, sempre com orientação médica e nunca por conta própria.
- Avaliação do risco de trombose, que define se haverá medicação preventiva após a cirurgia.
- Marcação das veias na pele, com você em pé, geralmente no mesmo dia do procedimento.
- Jejum, quando houver sedação, raquianestesia ou anestesia geral.
- Organização da recuperação: meia de compressão já disponível, alguém para acompanhar a alta e os primeiros dias sem compromissos que exijam esforço.
Evite depilação com lâmina ou cera nos dias anteriores, para reduzir o risco de irritação e infecção na pele que será operada.
Recuperação
Após a cirurgia convencional
As primeiras duas semanas concentram dor, hematomas extensos na coxa e inchaço. Caminhar desde o primeiro dia é parte do tratamento. O retorno ao trabalho sem esforço físico costuma ocorrer entre uma e duas semanas, e atividades físicas intensas aguardam mais. Um relato detalhado da recuperação da cirurgia convencional ajuda a planejar esse período.
Após a microcirurgia
Pequenos hematomas, sensibilidade e inchaço leve são esperados e costumam melhorar em duas a três semanas. O retorno a atividades leves é rápido, em geral em poucos dias.
Em ambos os casos, os cuidados com meia, curativos, sol, exercício e viagens estão em pós-operatório de varizes.
Riscos da cirurgia
Complicações graves são pouco frequentes, mas incluem:
- hematomas extensos, mais comuns na safenectomia;
- alteração de sensibilidade na perna ou no pé por lesão de nervos sensitivos, geralmente temporária;
- infecção das incisões, principalmente na virilha;
- acúmulo de linfa (linfocele) na virilha, após a crossectomia;
- trombose venosa profunda, rara;
- manchas e cicatrizes, variáveis conforme o tipo de pele.
Outras consequências da doença venosa não tratada, como alterações de pele e úlceras, estão descritas em complicações das varizes. Pesar esses riscos com os da própria doença faz parte da conversa com o cirurgião vascular.
Perguntas frequentes
Tirar a safena faz falta para o coração?
Uma safena com refluxo não cumpre a sua função de levar o sangue de volta ao coração; ao contrário, piora a circulação da perna. Por isso retirá-la ou fechá-la não prejudica o retorno venoso, que passa a ser feito pelas veias profundas. A safena só seria útil como enxerto em uma ponte coronária se estivesse saudável, o que o eco-Doppler ajuda a avaliar.
Microcirurgia de varizes deixa cicatriz?
As incisões costumam ter poucos milímetros e, em geral, não precisam de pontos. Na maioria das pessoas elas se tornam pontos claros discretos com o passar dos meses. Quem tem tendência a queloide ou cicatrizes escuras deve informar a equipe, que pode ajustar o planejamento e os cuidados com a pele.
Quanto tempo de internação tem a cirurgia de varizes?
A microcirurgia com anestesia local costuma ser feita sem internação, com alta no mesmo dia. A cirurgia convencional da safena, feita com raquianestesia ou anestesia geral, em geral tem alta no mesmo dia ou no dia seguinte. O tempo depende da extensão da operação, do tipo de anestesia e das condições de saúde de cada pessoa.
Referências
- European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2022 Clinical Practice Guidelines on the Management of Chronic Venous Disease of the Lower Limbs
- The 2023 Society for Vascular Surgery, American Venous Forum, and American Vein and Lymphatic Society clinical practice guidelines for the management of varicose veins of the lower extremities. Part II
- NICE Clinical Guideline CG168 — Varicose veins: diagnosis and management
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Laser, radiofrequência, espuma, cirurgia, escleroterapia e meias: como cada tratamento de varizes funciona, para quem serve e como a escolha é feita.
Este conteúdo é educativo e não substitui a avaliação individual. Diagnóstico e indicação de tratamento dependem de consulta e, na doença venosa, quase sempre de eco-Doppler.
