Em resumo
A úlcera venosa é uma ferida na perna, geralmente perto do tornozelo, causada pela pressão alta e persistente dentro das veias. Ela demora a cicatrizar porque a causa continua agindo. Compressão bem feita e tratamento das veias com refluxo são os pilares: a compressão cicatriza, e a correção do refluxo acelera a cicatrização e reduz a chance de a ferida voltar.
A úlcera venosa é uma ferida aberta na perna causada pela pressão elevada e contínua dentro das veias. Costuma surgir na região do tornozelo, sobretudo na face interna, e demora a fechar porque a causa continua presente. O tratamento tem dois pilares: compressão, que permite a cicatrização, e correção das veias com refluxo, que acelera o fechamento e diminui a chance de a ferida voltar.
Como a ferida se forma
Quando as válvulas das veias falham, o sangue desce e fica represado na parte baixa da perna, principalmente quando a pessoa está em pé. A pressão dentro das veias do tornozelo permanece alta o dia inteiro.
Essa hipertensão venosa causa extravasamento de líquido, proteínas e células do sangue para a pele. O resultado é inflamação crônica, depósito de ferro, que escurece a pele, e endurecimento do tecido subcutâneo, chamado lipodermatoesclerose. A pele fica frágil e mal nutrida. Um pequeno trauma, uma coceira ou um eczema bastam para abrir uma ferida que não consegue se fechar sozinha. O mecanismo é detalhado em como a úlcera venosa se forma.
A causa pode ser o refluxo das veias superficiais, das profundas ou de ambas. Sequelas de uma trombose venosa profunda antiga são uma origem frequente e nem sempre lembrada.
O último estágio da doença venosa
A úlcera é a fase mais avançada da insuficiência venosa crônica. Na classificação CEAP, usada no mundo todo, ela corresponde a:
| Classe | Significado |
|---|---|
| C5 | Úlcera venosa cicatrizada |
| C6 | Úlcera venosa aberta |
| C6r | Úlcera venosa aberta que já havia cicatrizado e voltou |
Os sinais que costumam anteceder a úlcera, como manchas escuras, eczema e endurecimento da pele perto do tornozelo, são o momento ideal para agir.
Como reconhecer uma úlcera venosa
- localização na parte baixa da perna, com frequência acima do tornozelo, na face interna;
- bordas irregulares, fundo avermelhado ou com fibrina amarelada;
- secreção variável, às vezes abundante;
- pele ao redor escurecida, endurecida, descamando ou com eczema;
- inchaço da perna, que piora no fim do dia;
- dor que tende a melhorar com as pernas elevadas.
Descartar outras causas
Nem toda ferida na perna é venosa, e o tratamento de uma pode prejudicar outra. A avaliação inicial deve incluir:
- circulação arterial: palpação dos pulsos e medida do índice tornozelo-braquial. Úlceras arteriais doem mais com a perna elevada, ficam em pontos de pressão ou nos dedos e têm fundo pálido. Compressão forte em perna com artéria obstruída pode causar necrose;
- diabetes e neuropatia, que favorecem feridas nos pés;
- doenças inflamatórias e da pele;
- biópsia quando a ferida tem aspecto atípico ou não evolui apesar do tratamento correto, porque tumores de pele podem se parecer com úlceras ou surgir em feridas muito antigas.
O eco-Doppler venoso mostra quais veias têm refluxo ou obstrução e é a base para decidir o tratamento da causa. Uma visão geral das causas das úlceras de perna ajuda a entender essa diferenciação.
Compressão: a base da cicatrização
A compressão contrabalança a pressão dentro das veias, reduz o inchaço e melhora a circulação na pele. Sem ela, curativos sozinhos raramente fecham uma úlcera venosa.
As formas mais usadas são:
- bandagens multicamadas ou inelásticas, aplicadas por profissional treinado, trocadas em intervalos de dias. São preferidas na fase de ferida aberta e com muito inchaço;
- bota de Unna, uma bandagem com pasta que endurece e funciona como compressão inelástica;
- meias de compressão específicas para úlcera, em geral em sistemas de duas camadas, que o próprio paciente consegue manejar.
A escolha depende do tamanho da ferida, da secreção, da circulação arterial e da capacidade de o paciente vestir a meia. Depois que a úlcera fecha, a compressão continua, geralmente com meias de compressão, para evitar que ela volte.
Tratar as veias doentes
Por muito tempo se esperou a ferida fechar antes de tratar as varizes. Isso mudou.
O estudo EVRA, publicado em 2018, comparou pacientes com úlcera venosa que fizeram ablação endovenosa do refluxo superficial logo no início com pacientes que fizeram só compressão e trataram as veias mais tarde. O grupo tratado precocemente cicatrizou mais rápido e passou mais tempo sem úlcera. Antes disso, o estudo ESCHAR já havia mostrado que corrigir o refluxo superficial, somado à compressão, reduz a recorrência da ferida.
Na prática, quando o mapeamento mostra refluxo das safenas ou de suas tributárias, costuma-se indicar o tratamento sem esperar a cicatrização, com técnicas minimamente invasivas como laser endovenoso e escleroterapia com espuma. As punções são feitas longe da ferida.
A espuma tem uma vantagem particular nessa situação: consegue alcançar as veias doentes logo abaixo da úlcera, em pele endurecida, onde cortes e cateteres seriam mais difíceis. Muitas vezes as técnicas são combinadas na mesma perna.
Quando o problema principal está nas veias profundas, como obstrução da veia ilíaca após trombose, pode haver indicação de tratamento por cateter com stent, em casos selecionados.
Cuidados com a ferida e com a pele
Os cuidados diários fazem diferença, desde que sigam orientação profissional. Os detalhes estão em cuidados diários com a ferida venosa. Os pontos principais:
- limpar a ferida com soro fisiológico ou água corrente limpa, sem esfregar;
- usar o curativo indicado para a quantidade de secreção, que muda ao longo do tratamento;
- hidratar a pele ao redor, sem aplicar hidratante dentro da ferida;
- evitar produtos caseiros, pomadas com antibiótico sem prescrição e substâncias que causam alergia;
- elevar as pernas acima do nível do coração em períodos de descanso;
- caminhar e movimentar os tornozelos, porque a panturrilha é a bomba das veias;
- controlar peso, diabetes e tabagismo, que retardam a cicatrização.
Vermelhidão que se espalha, calor, dor que aumenta de repente, mau cheiro intenso ou febre podem indicar infecção e pedem avaliação rápida.
Depois que fecha
A úlcera venosa tem tendência a voltar, principalmente quando a compressão é abandonada e o refluxo não foi tratado. A pele cicatrizada continua frágil por muito tempo. Manter a meia, proteger a região contra traumas, tratar eczema e coceira precocemente e fazer revisões periódicas com o cirurgião vascular são as medidas que mantêm a ferida fechada.
Perguntas frequentes
Úlcera venosa tem cura?
A ferida pode cicatrizar completamente na maioria dos casos quando a compressão é bem feita e a causa venosa é tratada. A doença de base, porém, é crônica, e a úlcera pode voltar. Manter a compressão depois da cicatrização, tratar o refluxo das veias e cuidar da pele reduzem bastante esse risco.
Posso passar pomada caseira, açúcar ou antibiótico na ferida?
Não é recomendado. Receitas caseiras e pomadas com antibiótico usadas por conta própria podem irritar a pele, causar alergia e selecionar bactérias resistentes, sem tratar a causa. A limpeza e a escolha do curativo devem seguir a orientação da equipe que acompanha a ferida, conforme a quantidade de secreção e o aspecto do leito.
Com ferida aberta dá para operar as varizes?
Em muitos casos, sim. Técnicas como laser endovenoso, radiofrequência e espuma podem ser feitas com a úlcera ainda aberta, por punções longe da ferida. O estudo EVRA mostrou que tratar o refluxo superficial cedo, junto com a compressão, faz a úlcera cicatrizar mais rápido do que adiar o procedimento.
Toda ferida na perna é úlcera venosa?
Não. A maioria das úlceras de perna tem origem venosa, mas também existem úlceras arteriais, diabéticas, por pressão, inflamatórias e, raramente, tumores. A distinção muda completamente o tratamento: compressão, por exemplo, pode ser perigosa quando a circulação arterial é ruim. Por isso a avaliação vascular vem antes do curativo.
Referências
- Management of venous leg ulcers: Clinical practice guidelines of the Society for Vascular Surgery and the American Venous Forum (2014)
- Gohel MS et al. A Randomized Trial of Early Endovenous Ablation in Venous Ulceration (EVRA). New England Journal of Medicine, 2018
- European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2022 Clinical Practice Guidelines on the Management of Chronic Venous Disease of the Lower Limbs
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Este conteúdo é educativo e não substitui a avaliação individual. Diagnóstico e indicação de tratamento dependem de consulta e, na doença venosa, quase sempre de eco-Doppler.
