Pular para o conteúdo
Varizes Online

Varizes e doenças das veias

Lipedema, linfedema ou varizes: como diferenciar

Por Prof. Dr. Alexandre Amato, cirurgião vascular e endovascularAtualizado em 4 min de leitura

Em resumo

Lipedema é um acúmulo doloroso e simétrico de gordura nas pernas e às vezes nos braços, que poupa os pés. Linfedema é inchaço por falha da drenagem linfática e costuma atingir o pé. O edema venoso vem da insuficiência das veias, piora no fim do dia e melhora com as pernas elevadas. As três condições podem aparecer juntas, e cada uma tem tratamento diferente.

Pernas grossas, inchadas ou doloridas não têm uma causa só. Lipedema é um acúmulo de gordura doloroso e simétrico, que costuma poupar os pés. Linfedema é um inchaço por falha da drenagem linfática e em geral envolve o pé. O edema venoso vem da insuficiência das veias, aumenta no fim do dia e melhora com as pernas para cima. As três condições podem coexistir na mesma pessoa, e reconhecer cada componente muda o tratamento.

Três mecanismos diferentes

Lipedema é uma doença crônica do tecido adiposo que acomete quase exclusivamente mulheres. A gordura se acumula de forma desproporcional nos quadris, nas coxas, nas pernas e, com frequência, nos braços, com dor ao toque e facilidade para hematomas. A descrição completa de sintomas e tratamento do lipedema é um bom ponto de partida.

Linfedema é o acúmulo de linfa, um líquido rico em proteínas, porque o sistema linfático não consegue drená-la. Pode ser primário, por alteração no desenvolvimento dos vasos linfáticos, ou secundário, após cirurgia com retirada de linfonodos, radioterapia, infecções repetidas ou traumas. A explicação sobre o que caracteriza o linfedema aprofunda o tema.

Edema venoso é o inchaço causado pela pressão alta dentro das veias, geralmente por válvulas que não funcionam. Faz parte da insuficiência venosa crônica e costuma acompanhar varizes, embora possa existir sem varizes visíveis.

Tabela de diferenças

Característica Lipedema Linfedema Edema venoso
Quem costuma ter Mulheres, início na puberdade, gestação ou menopausa Homens e mulheres, qualquer idade Adultos, mais com a idade, gestações e histórico familiar
Distribuição Simétrica, nas duas pernas e às vezes nos braços Frequentemente assimétrica, pode ser de um lado só Uma ou as duas pernas, mais no tornozelo
Pés Poupados, com um degrau de gordura acima do tornozelo Envolvidos, dorso do pé inchado Inchaço ao redor do tornozelo
Dor Dor ao toque, sensibilidade, peso Pouca dor, sensação de peso e tensão Peso, cansaço e dor no fim do dia
Hematomas fáceis Frequentes Não é característico Não é característico
Afundamento ao apertar Pouco, nas fases iniciais Presente no início, diminui com a fibrose Presente
Melhora ao elevar as pernas Pouca Parcial no início Evidente, costuma melhorar à noite
Resposta à dieta A gordura das áreas afetadas resiste Não é o fator principal Não é o fator principal
Pele Macia, às vezes com nódulos palpáveis Espessada, dobras aprofundadas, infecções de repetição Manchas escuras, eczema, endurecimento perto do tornozelo
Varizes associadas Podem coexistir Podem coexistir Frequentes

Nenhum item isolado fecha o diagnóstico. É o conjunto, somado ao exame físico feito por quem conhece as três condições, que orienta.

Sinais que ajudam no consultório

Sinal de Stemmer

O examinador tenta pinçar a pele do dorso do segundo dedo do pé. No linfedema, a pele está espessada e não se deixa pinçar, o que torna o sinal positivo. No lipedema puro e no edema venoso, costuma ser negativo.

Desproporção corporal

No lipedema, a parte de cima do corpo pode ser proporcionalmente mais magra que a de baixo, e as roupas costumam ter numerações diferentes para tronco e quadril. O acúmulo termina de forma abrupta acima do tornozelo ou do punho.

Comportamento ao longo do dia

O edema venoso tem um padrão marcado: meias apertam mais à tarde, a marca do elástico aparece no fim do dia e a perna amanhece melhor. Esses e outros sintomas das varizes sugerem componente venoso.

Quando as condições se somam

Na prática clínica, é comum encontrar mais de uma condição na mesma paciente:

  • lipedema com insuficiência venosa: as duas são frequentes em mulheres e somam peso, dor e inchaço. O tratamento das veias com refluxo melhora a parte venosa do sintoma, mas não remove a gordura do lipedema;
  • lipolinfedema: em fases avançadas do lipedema, especialmente com obesidade associada, a drenagem linfática pode ficar sobrecarregada e surge um componente de linfedema, com envolvimento dos pés;
  • flebolinfedema: a insuficiência venosa de longa data sobrecarrega o sistema linfático, e o inchaço deixa de melhorar com a elevação das pernas.

Reconhecer cada componente evita frustrações, como tratar varizes esperando que a perna afine ou atribuir ao lipedema um inchaço que é venoso.

Exames que ajudam

O diagnóstico do lipedema é essencialmente clínico. A Associação Brasileira de Lipedema reúne os critérios para diagnosticar o lipedema e disponibiliza um questionário que estima a probabilidade de lipedema, útil como triagem antes da consulta. O ultrassom do tecido subcutâneo vem sendo estudado como apoio ao diagnóstico.

Para as veias, o exame de referência é o eco-Doppler venoso, que mostra refluxo e obstrução. Para o sistema linfático, a linfocintilografia avalia a drenagem quando há dúvida sobre linfedema. Exames de sangue ajudam a afastar outras causas de inchaço, como alterações da tireoide, do rim, do fígado e do coração.

Tratamentos diferentes para cada componente

Condição Base do tratamento
Edema venoso e varizes Compressão, movimento e correção das veias com refluxo por laser, radiofrequência, espuma ou cirurgia
Linfedema Terapia descongestiva complexa: drenagem linfática manual, enfaixamento, exercícios, cuidados com a pele e compressão de manutenção
Lipedema Abordagem conservadora com controle da inflamação, alimentação, exercício, compressão e manejo da dor; cirurgia em casos selecionados

A compressão aparece nas três, mas com objetivos, modelos e pressões diferentes. Os princípios gerais estão em meias de compressão. Diuréticos, em geral, não ajudam nem no lipedema nem no linfedema.

A ordem também importa. Em quem tem lipedema e varizes com refluxo, costuma-se tratar primeiro as veias, porque o componente venoso responde bem e seu alívio ajuda a avaliar quanto do sintoma restante vem do lipedema. Qualquer cirurgia no tecido adiposo deve ser planejada conhecendo o estado das veias e dos vasos linfáticos.

Quem nota pernas desproporcionais, doloridas ao toque e com hematomas fáceis, ou inchaço que não melhora de manhã, deve procurar avaliação vascular para separar os componentes antes de iniciar qualquer tratamento.

Perguntas frequentes

Quem tem lipedema também pode ter varizes?

Sim, e é uma combinação comum. As duas condições são frequentes em mulheres e podem somar sintomas como peso, dor e inchaço. Tratar as varizes com refluxo pode aliviar parte desse desconforto, mas não reduz a gordura do lipedema. Por isso vale investigar as veias com eco-Doppler em quem tem lipedema e sintomas venosos.

Diurético ajuda no lipedema ou no linfedema?

Em geral, não. No lipedema, o aumento de volume é principalmente de gordura, não de água. No linfedema, o líquido acumulado é rico em proteínas e volta rapidamente depois de um diurético, que ainda pode causar desidratação e alterações de sais minerais. O uso só faz sentido quando há outra causa de retenção indicada pelo médico.

Emagrecer resolve o lipedema?

O controle do peso melhora a saúde geral, a mobilidade e pode reduzir sintomas, e a obesidade associada agrava o quadro. A gordura característica do lipedema, porém, costuma resistir à dieta e ao exercício nas áreas afetadas. É justamente essa desproporção entre o tronco e as pernas que ajuda a levantar a suspeita.

Qual médico avalia essas condições?

O cirurgião vascular e o angiologista avaliam as três, porque lidam com veias, sistema linfático e diagnóstico diferencial do inchaço das pernas. Dependendo do caso, a abordagem envolve também fisioterapeuta, nutricionista, endocrinologista e profissional de saúde mental.

Referências

  1. Herbst KL et al. Standard of care for lipedema in the United States. Phlebology, 2021
  2. European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2022 Clinical Practice Guidelines on the Management of Chronic Venous Disease of the Lower Limbs

Continue lendo

Este conteúdo é educativo e não substitui a avaliação individual. Diagnóstico e indicação de tratamento dependem de consulta e, na doença venosa, quase sempre de eco-Doppler.