Em resumo
Não existe um tratamento de varizes melhor para todo mundo: a escolha depende de qual veia está doente, do calibre e do trajeto dela no eco-Doppler, dos sintomas e do objetivo de cada pessoa. Quando a safena tem refluxo e a anatomia permite, as diretrizes internacionais colocam as técnicas endovenosas térmicas (laser e radiofrequência) como primeira opção; vasinhos são tratados com escleroterapia e laser transdérmico.
O tratamento de varizes é escolhido veia por veia. Uma safena com refluxo, uma variz tortuosa logo abaixo da pele e um vasinho de um milímetro são problemas diferentes e respondem a técnicas diferentes. Por isso a pergunta útil não é qual é o melhor tratamento, e sim qual tratamento resolve cada uma das veias que aparecem no seu exame.
Quase sempre o plano começa por um mapa: o exame físico em pé e o eco-Doppler venoso. A partir dele, o cirurgião vascular decide o que tratar primeiro, com qual técnica e se vale a pena combinar métodos.
Como a escolha é feita
O que o eco-Doppler mostra
O eco-Doppler responde às perguntas que o olho não responde: em qual veia o sangue está voltando para baixo (refluxo), onde esse refluxo começa, qual é o calibre da safena, se o trajeto dela é reto ou tortuoso, se ela passa muito perto da pele e como estão as veias profundas. Uma variz visível na panturrilha pode ser alimentada por uma safena doente desde a virilha; tratar só a variz visível, nesse caso, costuma trazer resultado curto.
A gravidade clínica
A classificação CEAP organiza o quadro em graus, de vasinhos (C1) a úlcera aberta (C6). Ela ajuda a separar a queixa estética de uma doença venosa que já provoca inchaço, alterações de pele ou feridas. Quanto mais avançado o grau, mais o tratamento deixa de ser opcional e passa a ser uma forma de evitar complicações.
Sintomas e objetivos
Peso nas pernas, dor no fim do dia, câimbras, coceira e inchaço pesam na decisão, assim como o incômodo estético. Também contam o tempo disponível para recuperação, o medo de anestesia, outras doenças, o uso de anticoagulantes, o desejo de engravidar e o que está disponível no serviço e no plano de saúde.
As opções, lado a lado
A tabela resume as técnicas mais usadas. Os tempos de afastamento são referências gerais e variam de pessoa para pessoa e com a extensão do tratamento.
| Técnica | Para que tipo de veia | Anestesia | Afastamento típico | Observações |
|---|---|---|---|---|
| Laser endovenoso | Safenas e outras veias tronculares com refluxo e trajeto favorável | Local tumescente, com ou sem sedação | Costuma ser de 1 a 3 dias | Primeira escolha nas diretrizes quando a anatomia permite |
| Radiofrequência | As mesmas do laser | Local tumescente, com ou sem sedação | Costuma ser de 1 a 3 dias | Resultados comparáveis aos do laser |
| Adesivo (cianoacrilato) | Safenas com trajeto reto | Local, apenas no ponto de punção | Em geral, retorno rápido | Sem calor e sem tumescência; disponibilidade restrita |
| Escleroterapia com espuma | Tributárias, recidivas, perfurantes; safenas em casos selecionados | Nenhuma ou local | Em geral, nenhum ou 1 dia | Pode exigir mais de uma sessão |
| Microcirurgia (flebectomia) | Varizes tortuosas e visíveis, próximas à pele | Local | Costuma ser de 1 a 3 dias | Muito usada em conjunto com laser ou radiofrequência |
| Cirurgia convencional da safena | Safenas quando as técnicas endovenosas não se aplicam | Raquianestesia, geral ou local | Costuma ser de 1 a 2 semanas | Mais dor e hematomas que as técnicas por punção |
| Escleroterapia líquida | Vasinhos e microvarizes | Nenhuma | Nenhum | Trata vasinhos, não safenas doentes |
| Laser transdérmico | Vasinhos finos | Nenhuma, com resfriamento da pele | Nenhum | Frequentemente combinado à escleroterapia |
| Meias de compressão | Qualquer grau, para controle de sintomas | Não se aplica | Não se aplica | Aliviam sintomas; não fecham veias |
| Medicamentos flebotônicos | Sintomas como peso, dor e inchaço | Não se aplica | Não se aplica | Alívio sintomático; não eliminam varizes |
Uma comparação entre espuma, laser e cirurgia ajuda a enxergar as diferenças práticas entre os três caminhos mais discutidos em consultório.
O que as diretrizes recomendam para a safena doente
Quando a safena magna ou a parva tem refluxo e causa sintomas, as diretrizes da Sociedade Europeia de Cirurgia Vascular (ESVS, 2022), das sociedades americanas (SVS, AVF e AVLS, 2022–2023) e do NICE britânico convergem: se o calibre e o trajeto da veia permitem, a primeira opção é a ablação endovenosa térmica, feita com laser ou radiofrequência. Em comparação com a retirada cirúrgica da safena, essas técnicas oferecem resultados semelhantes ou melhores, com menos dor, menos hematomas e retorno mais rápido às atividades.
Quando a ablação térmica não é adequada, as técnicas não térmicas, como o adesivo de cianoacrilato, e a escleroterapia com espuma guiada por ultrassom aparecem como alternativas. A cirurgia convencional continua indicada em situações específicas, discutidas adiante.
Cada técnica em poucas linhas
Laser endovenoso
Uma fibra óptica é introduzida por punção na safena e emite energia que aquece e fecha a veia por dentro. A veia fechada é absorvida pelo organismo ao longo de meses, e o sangue passa a circular pelas veias saudáveis. Os detalhes estão em laser endovenoso para varizes.
Radiofrequência
Segue a mesma lógica do laser, mas o calor é gerado por um cateter de radiofrequência em contato com a parede da veia. Na prática, as duas técnicas têm eficácia parecida; a escolha costuma depender da experiência da equipe e do equipamento disponível. Veja como funciona a radiofrequência.
Escleroterapia com espuma
Um medicamento esclerosante, misturado a ar ou gás até virar espuma, é injetado na veia sob visão do ultrassom. A espuma desloca o sangue e lesa a parede interna, que se fecha. É útil em recidivas, veias tortuosas e em pessoas que não podem ou não querem passar por procedimentos maiores. Mais em escleroterapia com espuma.
Cirurgia convencional e microcirurgia
A cirurgia clássica retira a safena doente por incisões na virilha ou atrás do joelho. A microcirurgia, ou flebectomia, remove varizes tortuosas por microincisões de poucos milímetros, geralmente com anestesia local. Quando cada uma ainda é indicada está em cirurgia de varizes.
Escleroterapia líquida e laser transdérmico
São os tratamentos dos vasinhos (telangiectasias) e das microvarizes. A escleroterapia injeta o medicamento em forma líquida nos vasos finos; o laser transdérmico age através da pele, sem agulha. Saiba mais em escleroterapia de vasinhos e laser transdérmico.
Meias de compressão e medicamentos
As meias de compressão aliviam peso e inchaço e são usadas depois de vários procedimentos. Os medicamentos flebotônicos podem reduzir sintomas. Nenhum dos dois fecha uma safena com refluxo: são aliados, não substitutos do tratamento da veia doente.
Por que tantos tratamentos são combinados
Raramente uma perna tem um único tipo de veia doente. Um plano frequente trata a safena com laser ou radiofrequência e, no mesmo tempo ou semanas depois, remove as varizes tributárias por microcirurgia ou fecha com espuma as que restarem. Os vasinhos, por último, entram em sessões de escleroterapia ou laser transdérmico, quando a circulação que os alimentava já foi corrigida.
A ordem importa. Tratar vasinhos enquanto a safena continua com refluxo tende a dar resultado de pouca duração, porque a pressão que dilata essas veias continua lá. Vale entender como escolher entre os tipos de tratamento antes de decidir por onde começar.
Recidiva: por que as varizes voltam
A doença venosa é crônica. Mesmo depois de um tratamento bem feito, novas veias podem se dilatar ao longo dos anos. Isso acontece com todas as técnicas e tem causas diferentes:
- Progressão da doença: veias que eram normais no primeiro exame passam a ter refluxo.
- Neovascularização: formação de pequenas veias novas na região tratada, descrita principalmente após a cirurgia convencional na virilha.
- Recanalização: a veia fechada volta a abrir parcialmente, algo mais comum após espuma em safenas de grande calibre.
- Tratamento incompleto: uma fonte de refluxo não identificada no exame inicial.
Entender por que as varizes podem voltar ajuda a encarar a recidiva como parte da evolução da doença, e não como falha inevitável do procedimento. Quando ela acontece, o caminho recomeça pelo eco-Doppler, e o tratamento costuma ser menor que o primeiro; há casos em que se discute o que muda numa segunda cirurgia.
Situações que mudam o plano
Gestação e desejo de engravidar
Na gravidez, as varizes costumam piorar pelo aumento do volume de sangue, pela ação hormonal e pela compressão das veias pelo útero. Muitas melhoram nos meses após o parto. Por isso o tratamento definitivo com procedimento costuma ser adiado, e o foco fica em compressão, atividade física e controle dos sintomas. Quem planeja engravidar em breve pode discutir com o especialista se vale tratar antes ou depois. Detalhes em varizes na gravidez.
Úlcera venosa
Quando já existe ferida, a compressão é a base do tratamento, e corrigir o refluxo superficial com técnicas endovenosas ou espuma ajuda a cicatrização e reduz a chance de a úlcera voltar. O tratamento da veia não substitui os cuidados com a ferida; os dois caminham juntos. Veja úlcera venosa.
Idade avançada e outras doenças
Técnicas por punção com anestesia local ampliaram muito o número de pessoas que podem ser tratadas, inclusive idosos e pessoas com doenças cardíacas ou pulmonares. A escleroterapia com espuma é uma opção frequente quando mesmo um procedimento curto representa risco. O uso de anticoagulantes não impede todos os tratamentos, mas exige planejamento conjunto com o médico que os prescreveu.
Pernas grossas que não são só varizes
Aumento de volume simétrico nas pernas, com dor ao toque e facilidade para manchas roxas, poupando os pés, pode indicar lipedema, uma condição diferente que muitas vezes coexiste com varizes. Tratar as veias não resolve o lipedema, e o contrário também vale. Entenda a diferença em lipedema ou varizes.
Trombose anterior
Quem já teve trombose venosa profunda precisa de avaliação cuidadosa das veias profundas antes de tratar as superficiais. Em algumas situações, as varizes são uma via importante de retorno do sangue e não devem ser fechadas; em outras, o tratamento é possível com precauções adicionais.
Quem talvez não precise de procedimento
Nem toda variz precisa ser tratada com procedimento. Pessoas com veias pequenas, sem sintomas e sem alterações de pele podem optar por acompanhamento, controle de peso, atividade física e meias nos períodos de maior incômodo. O mesmo vale para quem tem contraindicação temporária, como a gestação, período em que o tratamento definitivo costuma ser adiado.
Por outro lado, alguns sinais pedem avaliação sem demora: inchaço persistente, escurecimento ou endurecimento da pele do tornozelo, feridas que não cicatrizam, sangramento de uma variz e cordões dolorosos e avermelhados, que podem indicar tromboflebite.
Depois do tratamento
A recuperação depende da técnica, mas algumas regras valem para quase todas: caminhar desde o primeiro dia, usar compressão quando indicada, esperar alguma dor e manchas roxas e fazer o controle com ultrassom quando solicitado. O passo a passo, com prazos típicos e sinais de alerta, está em pós-operatório de varizes.
Nesta seção
Laser endovenoso para varizes
Como o laser endovenoso fecha a safena doente por dentro, o que é a anestesia tumescente, quanto tempo leva a recuperação e quais efeitos são esperados.
Radiofrequência para varizes
Como a radiofrequência fecha a safena com calor controlado, em que ela difere do laser endovenoso e o que são as alternativas sem calor, como a cola e a MOCA.
Escleroterapia com espuma
Como a espuma de polidocanol guiada por ultrassom fecha varizes, em quais casos é boa escolha, quais são as limitações e os efeitos que podem aparecer depois.
Cirurgia de varizes
Como são a retirada da safena e a microcirurgia de varizes, que anestesia usam, quanto tempo leva a recuperação e em quais casos a cirurgia continua indicada.
Escleroterapia
Como funciona a escleroterapia líquida para vasinhos: substâncias usadas, número de sessões, manchas, cuidados com o sol e quando ela não é a melhor opção.
Laser transdérmico para vasinhos
Laser transdérmico para vasinhos nas pernas: comprimento de onda, resfriamento da pele, fototipos, combinação com escleroterapia (CLaCS) e limites do método.
Meias de compressão
Como escolher a meia de compressão: faixas de pressão em mmHg, modelos, como tirar as medidas, a melhor hora de vestir, contraindicações e quanto tempo dura.
Pós-operatório de varizes
Caminhada, meia, dor, manchas roxas e prazos típicos para trabalho, exercício, sol e viagens depois de laser, radiofrequência, espuma ou cirurgia de varizes.
Remédios para varizes
Flebotônicos como diosmina, hesperidina e castanha-da-índia aliviam peso e inchaço, mas não eliminam varizes. Veja evidências, limites e o papel dos cremes.
Perguntas frequentes
Qual é o melhor tratamento para varizes?
Depende da veia doente. Para uma safena com refluxo e trajeto adequado, laser endovenoso e radiofrequência são a primeira escolha nas diretrizes europeias e americanas. Varizes tortuosas próximas à pele respondem bem à microcirurgia ou à espuma, e vasinhos, à escleroterapia e ao laser transdérmico. Muitas pessoas precisam de uma combinação, definida depois do exame físico e do eco-Doppler.
Dá para tratar varizes sem cirurgia?
Em boa parte dos casos, sim, no sentido de dispensar cortes e internação. Laser endovenoso, radiofrequência, adesivo e espuma são feitos por punção, com anestesia local ou nenhuma. Meias de compressão e medicamentos aliviam sintomas, mas não fecham a veia doente, portanto não substituem o tratamento quando há refluxo importante.
As varizes voltam depois do tratamento?
Podem voltar, com qualquer técnica. A doença venosa é crônica e novas veias podem se dilatar com os anos, por predisposição, gestações ou pelo próprio envelhecimento. Tratar a origem do refluxo, identificada no eco-Doppler, reduz a chance de recidiva precoce, e o acompanhamento permite tratar veias novas enquanto ainda são pequenas.
Preciso fazer eco-Doppler antes de tratar varizes?
Para varizes visíveis e sintomáticas, sim. O eco-Doppler mostra qual veia tem refluxo, onde ele começa, o calibre e o trajeto da safena. Sem esse mapa, o tratamento pode atingir apenas as veias aparentes e deixar a origem do problema intacta. Para vasinhos isolados, sem varizes maiores, o exame nem sempre é necessário.
Referências
- European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2022 Clinical Practice Guidelines on the Management of Chronic Venous Disease of the Lower Limbs
- The 2022 Society for Vascular Surgery, American Venous Forum, and American Vein and Lymphatic Society clinical practice guidelines for the management of varicose veins of the lower extremities. Part I. Duplex Scanning and Treatment of Superficial Truncal Reflux
- The 2023 Society for Vascular Surgery, American Venous Forum, and American Vein and Lymphatic Society clinical practice guidelines for the management of varicose veins of the lower extremities. Part II
- NICE Clinical Guideline CG168 — Varicose veins: diagnosis and management
Este conteúdo é educativo e não substitui a avaliação individual. Diagnóstico e indicação de tratamento dependem de consulta e, na doença venosa, quase sempre de eco-Doppler.
